Paulo Mendes Campos, em uma de suas crônicas reunidas no livro “O
Amor Acaba”, diz que devemos nos empenhar em não deixar o dia partir
inutilmente.Eu tenho, há anos, isso como lema.
É pieguice, mas antes de dormir, quando o dia que passou está dando o
prefixo e saindo do ar, eu penso: o que valeu a pena hoje? Sempre tem
alguma coisa.
Uma proposta de trabalho. Um telefonema. Um filme. Um corte de cabelo
que deu certo.Até uma briga pode ter sido útil, caso tenha iluminado o
que andava escuro dentro da gente.
Já para algumas pessoas, ganhar o dia é ganhar mesmo: ganhar um
aumento, ganhar na loteria, ganhar um pedido de casamento, ganhar uma
licitação, ganhar uma partida.Mas para quem valoriza apenas as
megavitórias, sobram centenas de outros dias em que, aparentemente, nada
acontece, e geralmente são essas pessoas que vivem dizendo que a vida
não é boa, e seguem cultivando sua angústia existencial com carinho e
uísque, mesmo já tendo seu superapartamento, sua bela esposa, seu carro
do ano e um salário aditivado.
Nas últimas semanas, meus dias foram salvos por detalhes.Uma
segunda-feira valeu por um programa de rádio que fez um tributo aos
Beatles e que me arrepiou, me transportou para uma época legal da vida,
me fez querer dividir aquele momento com pessoas que são importantes pra
mim. Na terça, meu dia não foi em vão porque uma pessoa que amo muito
recebeu um diagnóstico positivo de uma doença que poderia ser mais
séria.Na quarta, o dia foi ganho porque o aluno de uma escola me pediu
para tirar uma foto com ele. Na quinta, uma amiga que eu não via há
meses ligou me convidando para almoçar.Na sexta, o dia não partiu
inutilmente, só por causa de um cachorro-quente.E assim correm os dias,
presenteando a gente com uma música, um crepúsculo, um instante especial
que acaba compensando 24 horas banais.
Claro que tem dias que não servem pra nada, dias em que ninguém nos
surpreende, o trabalho não rende e as horas se arrastam melancólicas,
sem falar naqueles dias em que tudo dá errado: batemos o carro, perdemos
um cliente e o encontro da noite é desmarcado.Pois estou pra dizer que
até a tristeza pode tornar um dia especial, só que não ficaremos sabendo
disso na hora, e sim lá adiante, naquele lugar chamado futuro, onde
tudo se justifica.
É muita condescendência com o cotidiano, eu sei, mas não deixar o dia
de hoje partir inutilmente é o único meio de a gente aguardar com
entusiasmo o dia de amanhã…
Martha Medeiros